Gelo Quente A1

Gelo Quente Arquivo 01

 

Criado por Carlos Adriano (Boto)

 

DESPERTAR

Um lapso …

… e recupero a consciência, já estou a mesa sentado comendo, quantas horas fazem? Não sei ao certo, o processo de descongelamento da criogênese capsular e incerto ainda, ainda mais feito sem percepções apuradas… É… Escapei, é o que importa, penso comigo catatônico olhando fixamente o nada sem conseguir reação, sentado, como lentamente como um débil hesitante, a esta meia luz oscilante neste canto ainda funcional desta nave por destino sucateada, minha moradia e lar, ou túmulo não sei ainda… Risos… Acalmo-me aos poucos e relaxo aconchegantemente na dura cadeira adentre o  frio e silencioso clima que me cerca não vacilante, o escuro infinito ainda me enfeitiça e nunca me arrependerei de andar sozinho e sem tempo ou lugar.

Checo o estoque de desidratados no compartimento vácuo, os sinalizadores estão fracos, a bateria de suporte interno deve estar descarregada… Irei com calma, não tenho muita comida e nem sei onde esta nave anda vagando, vamos nos focar.

Rastejo calmamente pelos dutos de circulação da nave, corredores pra ser mais exato, meio dormindo meio acordado, o processo de retorno à consciência é lento, devo estar de pé a horas, mas só agora vou me dando conta…meu corpo esta meio dormente, e preciso checar minhas funções internas na enfermaria depois, mas depois, depois dum banho, botar uma roupa quente e achar algum whisky que devo ter escondido aqui a centenas de anos, alias, acho que checarei as funções da nave antes de me acomodar.

Minha nave é um modelo raro de interceptador, construído a muitas centenas de anos na orbita do 4ALNYR, do sistema Nitur, um sistema de 16 planetas ao norte 34 ct da federação de Contivia, no qual 10 planetas são habitados, inclusive este em questão que é, ou era, um planeta rico em minérios metálicos, servindo de matéria prima pras centenas de empresas que se estabeleceram em sua orbita para construir colônias, cruzadores e todo o tipo de suporte para vida em vácuo. A nave era um modelo 34e-Intractporyl, os painéis e leitores estão em  Cootu, a língua oficial do planeta de fabricação, não sabia falar Cootu mas me acostumei com os painéis, depois destas centenas de anos, o im-radar mostra 10 espectros de luz, vácuo infinito a frente, uma corrente de asteróides a 15 anos, e um corpo sem luz que deve ter passado por nós a uns 10 anos…bem perto, a nave deve ter mudado a rota a tempo de não ser pega no efeito do objeto,  mudo o sistema do holovisor principal para modo histórico, configuro para a aparecer no simultâneo o DTL  e o batch de manobras da nave(arquivo de histórico de manobras efetuadas pela maquina sistematicamente, um relatório feito automaticamente pela nave enquanto as executa), busco no visor auxiliar, nos mostradores de diagnostico, a ultima data de controle no manual, faço comparações com a atual mostrada no sistema de suporte interno da nave, sistema que me da gravidade, pressão, e a impressão, bem vaga de que não estamos no vácuo, e lá esta, o sistema marca 450 anos delineares, ou seja fiquei algo em torno de 400 anos terrestres em suspensão criogênica, terrestre, risos, chega a ser cômico usar esta palavra, quantos séculos anos não vou ao meu planeta natal, quantas gerações já se passaram par aqueles cantos do vácuo enquanto eu vago atemporal e sem rumo por aí, em busca de emoções baratas, e um lugar para chamar de lar..humpf…então faz 400 anos dês da ultima tentativa de “lar”, parece que foi ontem, a imagem esta fresca na lembrança, volto para a data certa para ver o relatório na tela de histórico, e La esta..sistema de defesa se ativa…intercepta 12 pontos  contra, o sensor de movimentos identifica meu espectro físico adentrando a nave, a escotilha se fecha, o modo de fuga se ativa e faz manobras de evacuação, não é uma manobra de voo qualquer, uma manobra de voo esta dentro dos padrões de aerodinâmica da nave dentro da atmosfera do planeta, identificando as condições gravitacionais e as possibilidades Fisiológicas do piloto, na fuga a manobra e livre, a nave define sozinha e livre de cálculos auxiliares a forma mais rápida de cair fora, mesmo… Risos, agora eu to rindo, mas não foi nada engraçado na hora!!, Escuto um ruído num corredor da nave… Desvio o olhar pra penumbra taciturna, súbito no confuso entre a certeza da solidão e percepção perturbada ainda pelo sono prolongado, não era nada, só a dilatação de alguns canos de polímero. No sistema de histórico me aprofundo nas pesquisas, para ver, através dos anos, o que aconteceu, com a nave e, logicamente comigo, através do tempo… Vejo desvio de rotas padrão, retas seculares e o negro infinito guardando meu sono, por vastos anos abismais… Defino minha posição, bem, bem, bem distante do ultimo anel de asteroides conhecido… Mas não tem problema, achei uma caixa com 12 garrafas de uísque escondida no compartimento vácuo de mantimentos, à noite, risos, a noite nunca acaba aqui neste lugar…

Predefino o sistema para uma possível rota sem obstáculos ou “luzes” ate a próxima zona negra, onde o mercado de peças de manufatura e contrabando acontece às margens das federações estelares. Tento lembrar-me onde guardava os códigos de acesso para as configurações de robôs internos do computador, odiava decorar aqueles trecos e sempre tinha guardado… Em algum canto da nave… Sei La onde… E é possível que junto a algum álcool mais, nomes de mulheres… Risos…não tinha como, é possível que a maioria de minhas amantes estejam mortas a mais de 300 anos…risos, irônico que a vida perto do tudo, junto ao mais alto que pude chegar e sozinho sem ninguém pra ver..,ou compartilhar, mas…sem dramas, vou a cabine trocar de roupa e fazer algo parecido com café, que eles chamavam de essência  molecular de bebida…uh, o computador reproduz artificialmente o café invitro, que inferno…mais de mil anos não sinto o vento na cara….uh que draminha. Esquece cara… Seja paciente…

Recomposto pego o estojo de ferramentas e saio pelos corredores com o relatório de erros físicos impresso, meio sujo já, em tempo recorde, pelos dutos da nave, para a não tão periódica verificação, executada mais certamente toda vez que eu saio fugido de algum lugar e passo meio século dormindo no gelo… Apreensivo vejo as luzes da nave balançando junto com as vibrações do cosmos, o campo de força de 15 metros de espessura da nave a protege contra micro corpos, e eu estou aqui com um cigarro na boca, irônico e que é a 5ª vez que eu durmo em suspensão, eu tinha algo de 2500 anos e toda vez que me aproximo da civilização, novamente, nada muda, como a estagnação do ápice da evolução fosse algo tão monótono quanto um bar a tarde dum dia de trabalho… Cigarros, bebidas e mulheres sempre são as mesmas, como se fossem feitas em série, as fabricas e empresas, que são corporações tão poderosas que possuem galáxias com seus nomes, e dirigidas por supercomputadores que as fazem impossíveis de derrocada mesmo em 4 mil anos, controlam um modo de vida débil e sem pretensão…é, o cosmos se tornou uma rua de comercio na índia, todos alegres sem propósito, sem perdas ou ganhos, só esperando algo, como se o orgulho de tudo que construíram os intoxicassem ate o talo, os fazendo esquecer de algum possível passo a frente, talvez a volta da pessoalidade, de algum amor…de algum motivo pra fazer algo sem propósito….não da pra negar…o paraíso nunca me atraiu tanto quanto o inferno…

Os corredores são tão aconchegantes, úmidos e cheios de lembranças.. Estranho estes dutos  nunca estouram no mesmo lugar…mesmo passando mil anos..risos…soldo mais um duto de criofluido, a seco e com um faser falhado…mas ta dando pro gasto..preciso de ferramentas novas e também dum novo distribuidor auxiliar do painel principal, este ta dando os doces, me lembro quando comprei este, novinho, o vendedor me carregava o mostrador enquanto eu reparava nela do outro lado da rua…andando como se fosse a dona do cosmos, minha Lilandra, intocada pela matéria e totalmente possuída pelo cosmos, olhar dominante de dona da verdade e cassoante, era a mulher mais insana que lembro, bebemos tanto junto e caímos em tantas ruas, que planeta era aquele??Sei La…Etronder 14 acho…lembro que viajamos pra muitos lugares, trabalhava para uma empresa de supervisão orbital…era administrador de recursos de tempo real…olha só..eu trabalhando em tempo real…risos…o cosmos da muitas voltas…troco o cigarro de mão e ajeito a toca, arrumo as botas pra escalar a parede lateral do convés…vou consertar umas das tampas de escotilha…meio amassada na borda e pode vir a despressurizar a nave depois de um tempo, acho que foi por esta que me arrastei aquele dia, ate o controle da nave…eles todos no meu pé, os guardas de escolta do H. W. Sinter, figura que não ficou muito alegre quando descobriu que a mulher dele e filha do cybermístico yardan Andall andava com um qualquer bêbado cósmico profissional, risos, hoje é engraçado, saber que aquele puto tecnicamente esta morto ha tempos e eu aqui vivo pra contar historia, a alguém, sei lá, esquece. A nave se defendia como podia, ela é guerreira, não e atoa que eu a mantenho… Um plasma pegou na tampa, olha o detalhe, derreteu o titânio como se fosse polímero… Arrastei-me ate os controles e iniciei a criogenia enquanto a nave entrava em fuga… Fui pra capsula, ferido e quase morto…hoje só cicatrizes..ela cumpriu bem o seu serviço, só cicatrizes e lembranças, amargas lembranças de uma mulher…e de jogo de cartas num planeta deserto…huumpf.

 Horas depois os consertos mais primordiais já tinham sido fixados, o sistema de pressurização é desligado para algumas correções nos softwares de controle, a nave se aproxima vagarosamente da civilização, se arrastando por caminhos os quais os sistemas oficiais de trafego espacial não monitoram e o personagem se encontra em suas dependências bebendo ao som de antigos instrumentos que soam como as ondas no espaço, como um lago com brisa fria ao começo da noite, o computador começa a captar fracas ondas de frequência de comunicação do setor mais próximo, e ele começa a se localizar no tempo e nos fatos atuais que a galáxia procede, ele serve uma dose e sai pelos corredores para tomar um banho demorado no setor pessoal, sem compromissos ou valores reais, sua mente é nua e seu corpo iguais. Pensamentos volteiam sobre o passado, tantas épocas, fatos e nomes, ações, alegrias e arrependimentos em tempos que não importa mais, porem, são vivas e trazem um misto de frustração, nostalgia e solidão cada vez mais presente, a cada ano luz o qual se move através do casco da nave que desliza por um corredor imaginário que o leva da falta de destino a total incerteza…as perguntas certas jamais respondidas por paredes que o isolam do absoluto,  respostas dadas a vozes já extintas a muitos anos atrás, são como enfrentar demônios refletidos em ampulhetas seculares que não estão mais vivas quando falam com você.

O suporte de consciência artificial da nave esta em 97 por cento e os controles começam a responder sozinhos..a nave volta a vida e começa a definir nosso rumo sozinha, ha frequências bem vivas no sistema de áudio, depois de um mês em velocidade máxima chego no sistema mais próximo e, faço a volta por fora e sigo por traz de um campo de gelo na orbita de um planeta extinto a séculos, desligo os motores para resfriamento e confio na inércia para continuar a rota, as novidades são insistentes na conexão, 2, 3 revoluções, uns 15 ministros depostos e a galáxia continua a mesma droga, um retrato velho de algo totalmente novo, o ápice de tudo e um limbo monótono como o ultimo jogo de cartas da madrugada sem apostas.

De acordo com as últimas frequências ocorre uma revolução em Diest’ndall 34, planeta metrópole que teve seu ápice há uns 500 anos atrás e agora vive em decadência social, o novo partido de atitudes prepotentes pra não dizer neo-comunistas tenta assumir o controle, o governo regente tenta se manter no governo, não se sabe porque e, contrabandistas, marginais e todo o tipo de gente noturna se aproveita da confusão pra residir e transitar pagando o mínimo de impostos, usando do ilícito e bizarro como se fosse uma rotina simplória e alegre,  ate da pra entender que o mausoléu cósmico que se tornou a prosperidades social massiva que e a confederação galáctica gere vermes tão agitados e fervorosos como este subúrbio que e o 34 negro.

A nave define entrada na orbita pela noite e em um ponto fora do alcance dos controladores de reentrada das torres do planeta,  capto a frequência de um píer de aterrissagem clandestino, 200 créditos a plataforma, barato, peço permissão para aportar e me é definido a plataforma 45, ala sul da zona portuária. O lugar, em sua totalidade sem luzes, dificultando a aterrisagem manual, peço para a nave aterrissar sozinha e ela diz que tudo bem, que já consegue fazer manobras desta classe, ela liga os espelhos repelentes magnéticos e liga o campo de estabilidade magnético, as baterias solares são postas pra fora a espera do dia e a nave aporta sem grandes problemas, ponho uma roupa discreta, pego o resto do dinheiro que achei para alguma diversão e desço a plataforma e vou direto ao acesso principal.

Licença Creative Commons
O trabalho Gelo Quente de Carlos Adriano foi licenciado com uma Licença Creative Commons – Atribuição – NãoComercial – CompartilhaIgual 3.0 Brasil.
Com base no trabalho disponível em www.zykonn.wordpress.com.
Podem estar disponíveis autorizações adicionais ao âmbito desta licença em http://www.portalgeobrasil.org.

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2 comentários sobre “Gelo Quente A1

  1. muito bom, vai ter continuação?

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