Jussara e a viagem do Capitão Pickles 08

Diário de Bordo 041

Data Galáctica 506

Capitão James Pickles

Durante dias fiquei pensando na visão rosa que tive. Apesar de saber que tudo não passa de uma grande paranoia minha, a imagem do He-Man e do outro de colante rosa ficaram gravadas em meu cérebro. Nossa rota é o planeta Marte (agora acertei o nome), estamos em busca de um novo lugar para ficar, porém, minha preocupação não é a chegada no planeta laranja, mas sim, como vamos decolar daquele inferno vermelho alaranjado. Com muito sacrifício decolamos da lua, como vamos decolar sem o estilingue?

Marte é um planeta misterioso, ainda não entendo como os marcianos são verdes, ao invés de criaturas avermelhadas. Talvez passem fome ou tenham medo de algo. Como seriam na verdade os habitantes de marte?

Os arquitetos querem implantar o Rédi Compléxi Bildingui no centro do planeta. Um loteamento arrojado com vista para os asteroides malditos e uma janela telescópica apontada para a terra. Apartamentos luxuosos com banheira térmica e cortinas estelares reais. Não entendi nada. Mas são os arquitetos que disseram. Depois dos eventos com as Moniques Evans, os arquitetos mudaram seu gosto. Agora suas salas estão repletas de adesivos e pôsteres da Cláudia Raia e da Cláudia Ohana (aquela cabeluda). Também passaram a ouvir música, principalmente do grupo Róque Séti.

Os engenheiros se tornaram ex.. ess, digo, muito raivosos e arrogantes. Vivem dizendo que a tripulação é burra, que somos um bando de ignorantes, caipiras espaciais e o kct. Dizem que vamos morrer, que a Jussara não suportará até marte e que provavelmente, vamos fritar com um tal de vento solar. Depois nós é que somos iginorantes, daonde o sol tem vento, nada a ver. Arrogantes, se isolaram na sua área e assistem vídeos da Rita Cadilaque a toda altura. A música é péssima e a interpretação da moça é horrível. Péssima atriz.

Os judocas começaram a assistir um vídeo antigo da Rede Globo, um programa do tipo rialiti chou sobre um tal de ultimeiti faiti. Em uma semana se dividiram em dois grupos e mudaram seu estilo de luta. Continuam se arragando, mas agora, usam sunga de texugo ou de lobo guará. Puta merda.

Os mineiros estão em guerra com os jogadores por causa da roupa rasgada do He-Man. Eu tinha razão afinal. A cena timbrada em meu cérebro era verdadeira. Puta merda. O Castelo do Vingador foi deslegolizado e agora é o castelo de greicicol.

Diário de Bordo 042

Data Galáctica 506

Capitão James Pickles

Os demais ainda estão normais, mas, esta aproximação de Marte está tornando os tripulantes mais paranoicos do que antes. Não sei ao certo, mas até Spika mudou, não anda mais me assediando, não tem mais aquele olhar de fome. Realmente a nave mudou, o pessoal está mais focado em algo, porém este foco os tornou paranoicos. Voltei para minha cabina e fiquei refletindo com minhas máquinas de canha sete campos e meu velho barreiro envelhecido 200 anos. Liguei as músicas de fundo e apaguei.

Acordei com uma súbita barulheira, abri minha porta e quase fui atingido por uma concha cheia de feijão. Os cozinheiros estavam em luta armada com a equipe pontal. Isto significava que Jussara estava sem ninguém controlando. Sai correndo ainda com meu pijama do Pinóquio com camisetinha curta com manguinha vermelhas e meu chortinho sécsi listrado em direção à ponte. Chegando lá me deparei com algo inesperado: tudo ok. Fiz um H parecendo entender aquele amontoado de números e sinais de do mal que mudavam, giravam e piscavam. Com um ar superior disse em voz alta, muito bem, continue o curso até marte.

Ao virar de costas o mais fantasmagórico som saiu das entranhas de Jussara. O barulho parecia um resmungo de mulher, um resmungo de mãe braba, de mulher que espera o marido depois das 23:00 h na sala com um pote de sorvete numa mão e batendo com um colher de madeira roída na outra. Não sei como explicar, não sei se ainda estou no hospital alucinando, mas, a nave falou comigo. Virei-me calmamente com uma expressão muito normal, como se o fato fosse algo que já havia presenciado antes. Com aquela minha cara de macho militar perguntei em tom másculo o que estava acontecendo com ela. Quando ela me respondeu que eram dores por causa dos asteroides, não tive dúvida de que ainda estava em coma. Disse a ela que iria ver o que podia ser feito e corri para minha cabina me trancando lá. Tomei um porrão e esperava só acordar novamente ao fim do trauma que tinha sofrido. Com certeza iria acordar na clínica perto de casa, iria descobrir que tudo foi um sonho ruim e que este lance de falta de espaço na terra foi algo criado pela minha mente idiota.

Diário de Bordo 043

Data Galáctica 507

Capitão James Pickles

Acordei do porre na clínica e senti um alívio indescritível ao ver os médicos, o teto da clínica e ao olhar para o lado uma mesa com uma garrafa pela metade de velho barreiro. Porém, ao sentar na cama, ví ao fundo o Castelo de Greicicol, Spika e o He-Man montado em cima de um cara vestido ridiculamente de tigre verde com listras amarelas. Puta merda. Em parte algumas coisas eram reais, mas será que Jussara é viva?

Uma vez meu pai me contou uma história macabra e com fundo demonóide, algo que era muito ruim, mas parte fantasioso, ao menos, eu achava isso. Meu pai o famoso Jacinto Ná de Guas Pickles era o maior contador de causos das bibocas daondi eu vim. Meu véio contava dos poderes dos Pickles, um poder antigo de véio, algo que está nas entranhas da nossa família durante muitas gerações de séculos. O véio contava que os Pickles tinham o poder de falar com as coisas mortas, tipo uma toco ou uma pedra dos barrancos. Os mais antigos viviam e uma forma mais ligada ao meio graças a estes poderes, mas esta grandiosa dádiva foi se perdendo ao longo do passar dos tempos. Eu já não manifestei, mas o véio fazia os peixes morderem a isca e os mosquitos tomarem rumo rapidinho.

Quando eu entrei para a marinha e fiz meu curso de sucesso pelo mundo, senti algumas vezes que podia falar com o navio, mas achava que era coisa de loco, coisas de guerra. Também pensei nisto aqui na Jussara e na paranoia espacial. Mas acho que devo ser homem e encarar os fatos…

Diário de Bordo 044

Data Galáctica 507

Capitão James Pickles

Um espaço sem fronteiras, um imenso oceano de possibilidades nos esperam. Viemos de um mundo sem espaço, onde a ambição e o descuidado humano tornaram o mundo um lugar insuportável. Espremidos nesta realidade fomos obrigados a fugir para a lua, um lugar estérico, frio e sem cores, uma terra cheia de buracos, sem atimosfera e com bebidas racionadas (o maior terror de todos). Voamos sem rumo certo em uma nave que não sabemos de onde veio, sem identidade real e sem especificações em português claro e legível. Somos um grupo ímpar com feridas e ideais distintos em busca de uma vida digna. Como capitão da Global Jussara minha missão é possibilitar que estes homens alcancem sua supremacia, evolução e propostas de vida dentro do cosmos. Puta merda, só posso estar bêbado, falar assim, desta forma, bonita, séria e coerente. Não mesmo Pickles, não é você.

Diário de Bordo 045

Data Galáctica 507

Capitão James Pickles

Não aguento mais esta nóia de não saber se estou em coma, sonhando ou acordado fazendo tudo errado. Minha vida inteira fiz tudo sabendo que estava 100% certo. Mas agora, não tenho certeza do que sou, de onde estou e se realmente esta viagem é real ou é um sonho porral de cachaça. Acordei novamente e desta vez, vi o que vi e não tive dúvida. O He-man existe, o castelo dele existe, o cara vestido de gato guerreiro existe e o fresco de langerí rosa também. Puta merda. Levantei da cama, tirei meu pijama do Duck Rogers coloquei meu uniforme com o kerpe do Yamato e energicamente fui até a ponte.

Todos me aplaudiram no caminho e quando cheguei no alvo uma voz deliciosa e altamente sexy disse: vai que é tua Pickles. Puta merda, era a Spika que me abraçou, me deu um beijo na boca e me desejou sorte. Então entendi que todas já sabiam dos problemas na ponte e que a nave estava estranha. Rumores de que Jussara podia falar e navegar por conta própria já circulavam nos bastidores. Até mesmo os engenheiros estavam com medo. Enfim, a porta se abre e uma luz rosa emana por toda a parte e uma doce voz como cuca doce da vó Nutrela me chama. Vem Pickles, sou tua, me guia e teremos uma vida nova além de marte….

Licença Creative Commons
O trabalho Jussara e a Viajem do Capitão Pickles de Alexsandro Barbosa Costa foi licenciado com uma Licença Creative Commons – Atribuição – NãoComercial – CompartilhaIgual 3.0 Brasil.
Com base no trabalho disponível em www.zykonn.wordpress.com.
Podem estar disponíveis autorizações adicionais ao âmbito desta licença em http://www.portalgeobrasil.org.

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