O dia que faltei (Coleção PAM Vol 01)

A quarta-feira

Naquela quarta-feira chuvosa após uma noitada assistindo todos os filmes da série Crepúsculo e muito, mas muito energético, não achei motivos para levantar e ir a para aula de literatura. O que é uma aula chata de literatura perto da delícia da minha cama. Cheguei a sentar na pontinha da cama e colocar um pé no chão. Com meu delicado pezinho em minha pantufa de ursinho carinhoso pensei de novo e de novo. Sem óculos minha vida é embaçada, assim como meus pensamentos na primeira hora após meu sono de beleza. Girei a cabeça e quando meus cabelos entraram na minha boca e nos meus olhos, me joguei novamente na cama afundando no meu cobertor do rei leão. Encolhi os pés e me enfiei para de baixo do cobertor, para minha caverna aquecida da preguiça plena. Pensei de novo sobre a aula e dormi gostosamente.

Naquela aula alguém me procurou e eu não estava.

Naquela aula foi feito um sorteio de uma viagem pelo número da chamada. O número sorteado foi o meu.

Naquela quarta-feira não houve aula de literatura, mas, aula de física com dicas importantes para o vestibular.

Naquela quarta-feira eu não estava na parada e não pude informar para aquela família onde ficava o hospital em nossa cidade. A criança no banco de trás morreu.

Naquela manhã eu não conheci o homem que seria meu grande amor, pois, não fui na aula e não derrubei o café dele correndo para entrar atrasada na sala de aula.

Naquela manhã eu não avisei minha melhor amiga que não estaria na aula. Devido a isto, ela foi até o cursinho e ao descobrir que não estava, desatenta, me ligou de seu celular atravessando a rua. Hoje ela está numa cadeira de rodas.

Fui bem em todas as provas menos na de física. Justamente os macetes dados naquela aula que perdi. Não me classifiquei e o ódio de meus pais por saberem que não alcancei média por causa da aula que perdi foi catastrófica. Perdi toda e qualquer forma de ganho familiar. Fui obrigada a trabalhar para pagar meu cursinho. Não sabia fazer nada, ao menos não muito bem para garantir algo que me rendesse uma boa grana.

Durante algum tempo destruí meus cabelos, minhas unhas e minha pele no McDonald’s como a guria das batatas. Evoluí muito, em seis meses já estava no sorvete. Devido a toda a gordura local e pressão frenética dos meus chefes, acabei por teu um úlcera nervosa e um cheiro impregnante de pastel em meu corpo. Não suportei, juro que tentei. Mas…

Trabalhei em outros lugares, vendi rapadura, dicionário, bala de goma no fim da linha do Viamão em Porto Alegre. Fiz um empréstimo e abri uma banquinha no paradão da garagem da Viamão. Não rendeu muito, mas, consegui bons contatos.

Acabei brigando com alguns vileros que faziam parte de meu passado. Minha decadência era tamanha que nem mais me importava em pegar os municipais. Minha vida de princesa havia acabado e minha visão havia sido comprometida. Não tinha mais grana para óculos feitos a partir de consulta. Tive que me virar com aqueles que você testa na prática nos camelôs. Não consegui mais pagar o cursinho, meus amigos não me reconheciam mais. Só no facebook eu ainda existia. Mas minhas fotos de pobre ativaram o caçador e minha conta foi bloqueada por atentar contra os princípios da família humana tradicional. Agora eu não era mais nada mesmo.

Candidatei-me a malabarista de sinaleira, vendia cestinhos e balas de goma nos ônibus. Meu cabelo era como um Bombril usado e a chuva nas tardes tristes de setembro eram como sol. Na verdade a única coisa que ainda me suportava.

Certo dia em um dia chuvoso, ao me exibir na sinaleira constatei que no carro da moda ali parado, um carro metálico com pessoas felizes e bem vestidas, estavam meus amigos. No volante o William, ao seu lado a Marci. No banco traseiro o Alex e o Diego discutindo sobre Capacitores Positrônicos. Eles me olharam, o carro avançou um pouco e o vidro baixou. Com uma expressão de eterno desprezo que no fundo era uma satisfação incubada tão forte, me olharam fixamente até que acabou explodindo uma pergunta: estava bom o seu sono naquela manhã?

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