CSI – Caras Sensíveis Inteligentes – EP02-TP1

CSI

TEMPORADA 01

EP2 – O caso da cabecinha de voz fininha.

[Dr. Dumbo]

Era noite, uma noite chuvosa e triste de junho. O frio era eminente, cortava os pensamentos, o nariz ardia e a boca latejava com os cortes do frio. O vento e a chuva balançavam e molhavam tudo ao redor. A água escorria pela roupa e embaçava os meus óculos. Meu cabelo empapado grudou nas minhas costas e o pior de tudo: o TICO começou a tremer e encolher. Acelerei o passo e quanto mais tentava correr, arriscando me esborrachar no chão molhado e escorregadio, mais o TICO se agitava e tentava se esconder. Me assustei quando ele parou de dar o ar da graça e ficou ali enfiado na roupa, enrugado e inerte. Pensei assustado que havia perdido o meu TICO naquele dia horrível. Não pensei duas vezes, peguei ele pela cabeça e puxei um pouco para fora, fiz uns carinhos balancei, agitei para os lados, puxei quase todo para fora e mesmo sentindo um frio do cão, olhei de perto o corpinho roliço e “roxinho”. Oh meu Deus meu TICO havia morrido?

Guardei meu bichinho de volta e continuei apesar da sensação de perda. Pensei em mil coisas, como seria minha vida daqui para frente, como iria contar para minha esposa que deixei o nosso TICO morrer na rua e ainda por cima de frio. Como apresentar o corpinho morto e flácido para ela. Todas as opções me assustavam. Não sabia como agir ou pensar, só me restava andar e chegar em casa o mais rápido possível para acabar com esta agonia. Nesta altura não me importava mais com a chuva, com a neblina ou com as pessoas que tentavam se matar (três para ser exato). Como convencer alguém de que a vida é boa e que deve ser vivida. Qual o argumento convincente que usaria? Como alguém cujo o seu TICO acabara de morrer poderia ser um agente transformador social. Nenhum dos meus cálculos era o bastante complexo e esclarecedor para me dar alguma luz neste momento. O que é a matemática quando o seu TICO está morto?

A chuva desgraçadamente começou a cair mais e mais, parecia uma placa de concreto sobre minha existência. A neblina transformou tudo em borrão e nada o que fazia ou tentava fazer parecia um traçado nítido. As pessoas e as lojas com suas vitrines iluminadas pareciam fazer parte de uma revista em quadrinhos cujo a tinta estava borrando por causa da água. Perdido em pensamentos sem sentido pisei em várias poças de água barrenta que sujaram minha roupa fantasticamente molhada. Apesar do frio, eu suava frio por dentro. Todo o meu corpo se sentia frio, molhado e sujo. A sorte se é que havia alguma, era que minha pasta militar impermeável salvou meus trabalhos e documentos da tempestade falsa que só atingia o meu corpo. O show de horrores provocados por guarda-chuvas e sombrinhas voadoras, jornais velhos que serviam temporariamente de proteção e pessoas molhadas e fedidas correndo sem rumo anunciavam um final de dia completamente trágico e marcante. Porém, nenhum deles estavam sem o seu TICO para consolar ou brincar na frente da lareira mais tarde.

Finalmente a reta final, a rua sem fim da minha residência. Ao apontar na esquina liguei meu cérebro para que durante os próximos dez minutos conseguisse elaborar uma apresentação formal decente para minha esposa. Talvez se entrasse com o TICO morto na mão, a imagem da coisinha murcha, roxa e desfalecida já lhe esclarecesse tudo sem que precisasse falar qualquer coisa. Toda a matemática que habitava o meu cérebro não foi capaz de equacionar a simples figura de um homem molhado com o seu TICO para fora e ainda por cima morto diante de sua mulher em uma noite fria, triste e chuvosa. Deus!

Então completamente perdido entre dois mundos, meu coração disparou de tal forma a soltá-lo pela boca. Havia pensado que tudo de pior já tinha cruzado o meu caminho nesta fatídica noite. Eis que uma criatura de mais de dois metros de altura iniciou uma trajetória em minha direção, andando lentamente com asas negras e uma voz estridente horrenda. Diminuí o passo e a coisa deu passos desconexos, sem sentido como se estivesse bêbada. A criatura se firmou em uma parede e se virou para o meu ser desprezível. Voltou a andar lentamente em linha reta e passou a emitir sons dantescos e sem sentido ou tradução. A cada passo ela parecia maior e a voz mais nítida em meus tímpanos. Minha garganta secou, o anel de couro apertou, todos os ossos tremeram, meus músculos ficaram rígidos. Então veio a luz e a luz que primeiro parecia ser um olho subiu e iluminou a coisa toda. Um grande sobretudo negro com um usuário com cabeça minúscula. A coisa parou e uma segunda voz surgiu do nada. A criatura me perguntou com todas as letras de um português muito bem construído: onde estamos?

Como um idiota cagado, respondi que se tratava do planeta Terra, Brasil, Rio Grande do Sul, Viamão, Krahe…

A coisa deu uma gargalhada rouca para logo depois uma voz fininha e assustadora dizer coisas na sua língua nativa. Não sabia se me borrava, se ria ou se corria com o TICO morto. Foi então que as coisas incrivelmente começaram a melhorar…

A coisa se ajoelhou e se partiu em duas. A coisa menor correu para o meu encontro com um olho iluminado e se jogou no chão. A coisa grande criou cabeça e se transformou em um humano na minha frente…

Levei alguns segundos preciosos que pareceram séculos para entender o que tudo aquilo era…

A coisa era o uma pessoa comum com uma capa de chuva que levava o seu filho sentado na suas costas com as pernas sobre seus ombros agarrado em sua cabeça. Ambos tinham lanternas. Ao olhar para a criança ela estava agarrada no meu TICO e feliz. O TICO havia acordado, estava de pé e bem agitado com as mãos da criança. O pai chamou o filho, estavam perdidos devido ao tempo ruim. Queriam ir na casa de um parente na COHAB. Depois de me recuperar do susto, expliquei ao bom homem por onde chegar no local desejado e segui para casa feliz com o TICO quentinho e esperto de novo.

Depois de um bom banho e uma boa refeição, me recostei no sofá com o TICO no colo para ver um filme com minha esposa. Fiquei muito feliz em ver o TICO vivo, correndo e latindo em volta da gente. Como dizem por ai, o cão é o melhor amigo do homem.

CASO CSI 02 ENCERRADO

 

Licença Creative Commons
O trabalho CSI – Caras Sensíveis Inteligentes de Alexsandro Barbosa Costa está licenciado com uma Licença Creative Commons – Atribuição-NãoComercial-SemDerivações 4.0 Internacional.
Baseado no trabalho disponível em https://zykonn.wordpress.com/2015/02/05/csi-caras-sensiveis-inteligentes/.
Podem estar disponíveis autorizações adicionais às concedidas no âmbito desta licença em http://www.portalgeobrasil.org/.

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